Beatriz Rabello – Bloco do Amor: #EuOuvi

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O Carnaval terminou há pouco tempo mas a minha recente descoberta musical tem tocado direto no meu Spotify e fazendo com que eu relembre essa época de folia. Aconteceu quando estava olhando meu feed no Facebook e apareceu um evento sugerido de um show de Beatriz Rabello, aqui no Rio, onde ela cantaria as canções de seu primeiro álbum, chamado Bloco do Amor (2016).

Beatriz Rabello - Bloco do Amor

O nome Bloco do Amor chamou minha atenção pois era época de Carnaval e resolvi ver sobre o que era. Para minha surpresa Beatriz é filha de Paulinho da Viola, um dos nomes mais importantes do nosso samba. O álbum de estreia da cantora é mesmo um ode a esses dias de festa, samba, batuque, fantasia e muita purpurina, mas onde o amor ganha destaque e vira enredo.

A carioca começou na música pelo teatro, fazendo parte do elenco de grandes musicais, dentre eles Sassaricando – E o Rio Inventou a Marchinha e SamBra. O samba, como a gente percebe, se tornou parte importante em sua vida e o processo de sair dos palcos do teatro para o palco de shows e rodas de samba aconteceu naturalmente.

Bloco do Amor (2016)  é composto de 13 faixas que depois de ter escutado uma a uma descobri que algumas delas foram escritas e cantadas por grandes nomes da música brasileira. Além de ter 3 composições assinadas por Paulinho da Viola, temos músicas do repertório de Chico Buarque (Sonho de um Carnaval, de 1964), Ivone Lara e Jorge Aragão (Enredo do Meu Samba), entre outros.

Eu não tenho costume de escutar samba e estou redescobrindo esse ritmo tão nosso por isso todas as músicas que ouvi, apesar de grandes sucessos e clássicos, foram novidades para mim. Então, sem mais delongas, vamos as faixas.

Beatriz Rabello e Paulinho da Viola

Sonho de um Carnaval começa com um ritmo igual a das marchinhas de antigamente e acontece uma introdução para um sambinha mais leve, que parece até ser mesmo um sonho, através de um batuque suave com violão, surdo (que muitos dizem que é o coração do samba levando sempre a marcação da melodia), tamborins e uma flauta. Fiquei muito encantada com a flauta nessa música.

A letra fala de deixar os problemas, as desilusões e as dores em banho maria durante esses dias de folia e por um momento respirar a alegria.

Mourão Que Não Cai se destaca logo no começo com a sequência de violão, que tem um dedilhar perfeito. Aí aparece uma flauta, que lembra um som mais indígena digamos assim, acompanhada do pandeiro. Segundos depois começa aquele samba clássico onde é cantado um ode a esse ritmo que tanto traduz a força brasileira.

Desistir Jamais é aquele chorinho que fala dos corações partidos e da vontade de dar a volta por cima e encontra um novo amor para somar. A melodia é gostosa de se ouvir e Beatriz acompanha a tranquilidade da espera por boas novas com uma voz suave que traz um agudo quando você percebe a vontade da pessoa em voltar a ser feliz. É aquela música que você escuta em uma roda cercada de cerveja, petiscos e sorrisos.

“Vou voltar a sair
Tentar me distrair
Quando o amor novo chegar
Vou somar, cansei de subtrair”.

Nós, Os Foliões é pura melancolia mas uma melancolia boa de chegar a boas conclusões. Através do piano e da sanfona é feita uma comparação entre o fim de um amor e o fim do Carnaval. Na metade da música você ouve um batuque leve mas firme do pandeiro. O final parece mais festivo, como se fosse uma reflexão de “é, foi bom enquanto durou”.

Enredo do Meu Samba faz uma análise de um relacionamento com um desfile de escola de samba. Entre enredos que teve mil mal entendidos, perdas em harmonia e fantasias e mais fantasias, chega-se a conclusão que chegada a apuração, não teve classificação. Tudo claro, ao som de violão, cavaquinho, tamborins e afins.

“Meu coração carnavalesco
Não foi mais que um adereço
Teve um dez na fantasia
Mas perdeu em harmonia
Sei que atravessei um mar
De alegorias
Desclassifiquei o amor de tantas alegrias”

Onde For o Nosso Amor é um lamento pelo amor perdido, que ganha intensidade pela força e beleza do cavaquinho que parece chorar conforme a música. A voz de Beatriz aqui é ainda mais serena, como se estivesse declamando uma poesia.

Solidão é bem contrário a uma música triste, mostrando o lado bom de você ter o tempo disponível para você. Tocado naquele bom samba, que você conhece a marcação e o dois pra lá, dois pra cá.

Nem Eu, Nem Você parece até o início de uma música clássica, com uma flauta marcante e o que me lembrou ser um violoncelo. Aparece em seguida o violão e o lamurio cantado sobre a decisão da separação, que apesar de ser a melhor coisa, sempre vai doer. Assim como em Sonho de Carnaval, as flautas estão compondo a música com um encanto ímpar.

Só o Tempo tem a participação de seu pai, Paulinho da Viola, fala de certas reflexões, através da vivência, especialmente em o quanto a gente é ansioso e sofre desilusões desnecessárias. Afinal se o tempo é o senhor da razão, que tal deixar pro conta dele, né? Beatriz, aqui, é a protagonista, talvez pelo pai estar feliz em compartilhar algo que eles têm em comum, que é a música.

“Ah, meu pobre coração
O amor é um segredo
E sempre chega em silêncio
Como a luz no amanhecer
Por isso eu deixo em aberto
Meu saldo de sentimentos
Sabendo que só o tempo
Ensina a gente a viver”

O ritmo de Sexta-feira de Carnaval é bem propício ao seu título. Com um cavaquinho tocado com maestria e um pandeiro tradicional, a canção parece um musical de alguém que está se preparando para sair para o desfile na ala da velha guarda e a cada passo a expectativa e a felicidade aumentam. Você nota que estão falando de alguém que vai desfilar na velha guarda quando é cantado que a protagonista está vestindo seu paletó, sua saia de linho, acompanhado do saltinho azul e bordado na lapela. Ela é do samba e vai sambar com a Portela.

Marcha de Quarta-Feira de Cinzas é declamada com um piano e um trombone, que parece demonstrar sua tristeza com o fim do Carnaval e junto com ela também o término daquela felicidade coletiva. A melodia me lembrou um pouco a bossa nova mas até que combinou com a proposta.

Terremoto é uma homenagem ao surdo que começa com potência nessa música e junto com os outros instrumentos realizam um desfile do Bloco da Chuva, que é ainda acompanhado por um coro no refrão e vozes de pessoas ao fundo se divertindo. Se você fechar os olhos consegue se imaginar em um bloco de rua e a animação contagia você por inteiro(a).

Bloco do Amor fecha esse álbum e é a minha favorita. É um sambinha bom de ouvir ao pé do ouvido e conta a história de uma triste colombina que resolveu partir em busca da felicidade nos braços de um novo arlequim e deixar de ser triste. Beatriz canta com aquela suavidade que ela consegue, transmitindo toda a paz interior que essa colombina deve estar sentindo. No meio da canção a música muda e ganha um ritmo de marchinha com um coro todo apoiando a decisão da colombina.

Resolvi me livrar daquela velha fantasia
De uma triste colombina
Que sabia fingir felicidade e não chorar
Encontrei os acordes de uma nova melodia
A canção que eu procurava e me fugia
E agora eu vou poder cantar

Fica o convite de cair em um mar de alegria junto com o Bloco do Amor, de Beatriz Rabello. 😉

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