Cícero – Cícero & Albatroz #EuOuvi

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Recém saído do forno e com um clipe na rua, vocês já podem curtir por streaming o quarto álbum da carreira solo de Cícero Rosa Lins, conhecido no meio artístico apenas como Cícero.

Carioca formado em direito e envolvido com música desde 2003, quando formou no ensino médio a banda Alice, o multifacetado artista estreou em carreira solo oito anos depois ao lançar o álbum Canções de Apartamento (2011). O disco foi todo produzido por Cícero dentro de seu próprio apartamento e chegou no cenário indie de forma bem consistente e sendo bem recepcionado.

Desde então Cícero tem lançado seus trabalhos a cada dois anos e em todos eles se mostra como um inquieto musical, sempre a buscar alguma forma diferente de se expressar.

Cícero
foto: reprodução

Cícero que morou recentemente em São Paulo mas é carioca, canta o viés da cidade que o viu crescer e os dissabores das vidas amorosas que se diluem pelas ruas festivas da cidade maravilhosa.
É normal encontrá-lo em alguma festinha bacaninha do ‘corredor cultural alternativo carioca’ que foge bravamente ao modelo quadrado e repetidor de hits das boates que se amontoam e comportam pessoas com ares de mais do mesmo.

Cícero & Albatroz (2017) traz entre as novidades o fato de que os músicos que o acompanham em shows desde seu primeiro trabalho dessa vez ganham nome e aparecem no álbum de forma mais consistente e de alguma forma mais autônoma na criação dos arranjos que escutamos (ao menos é o que parece ao se escutar o álbum) e na condução da história contada pelos músicos.

Albatroz surge de um poema homônimo de Charles Baudelaire (esse aqui) e também funciona de forma análoga a ave pela habilidade de ser uma das poucas que atravessa o oceano. Cícero complementa relatando que com essa banda já tocou pelo Brasil de ponta a ponta e também por parte da Europa.

Cícero & Albatroz
capa do álbum: Cícero & Albatroz (2017)

Temos na formação de Albatroz: Bruno Schulz (órgão eletrônico), Gabriel Ventura (guitarra), Uirá Bueno (bateria), Felipe Pacheco Ventura (violinos e wurlitzer), Pedro Carneiro (wurlitzer), Matheus Moraes (trompete) e Vitor Tosta (trombone). Junto a Cícero constroem um álbum de 10 faixas e pouco mais de 30 minutos, porém nada econômico em musicalidade e com uma roupagem sonora bem bonita e conflitante.

Nota pessoal: Wurlitzer é um piano eletrônico com cara de plotter de gráfica!

Por vezes o Albatroz voa calmo e baixo ao lado de Cícero como se fosse seu parceiro de estimação, domesticado, observador e quase inofensivo. Em outros momentos levanta voo alucinado e sem destino para então longe de seu condutor desbravar sua licença inalienável de ave livre para ir – musicalmente – onde quiser.

Aurora nº1 abre o o 4º trabalho de Cícero com percussão bem presente a com mais destaque para os sopros que o normal. Faixa calma que julgo ser uma boa introdução ao material que está por vir.

”Sob um sol urgente aliviará
chegará o amanhã
e se meu fim chegar
chegará amanhã
junto à luz de um dia claro e imenso”

A Ilha tem uns sopros mais funkeados e é uma explosão sonora, um pouco diferenciada do que estávamos acostumados em seus outros trabalhos.
A letra aqui parece ter pedido peso e importância em algumas das faixas e isso não é de todo mal.
Dessa forma outros aspectos da música saltam aos nossos ouvidos e assim como acontece em A Ilha esse efeito tem mais pontos positivos do que negativos.

Não Se Vá é inegavelmente a música mais pop do álbum e possui cara bem urbana. Tem um ritmo mais acelerado de cidade e fala sobre deixar o mundo seguir no tempo e velocidade próprios dele.
Dentro dessa perspectiva sugere que encontremos o nosso próprio tempo, espaço e que cuidemos de tudo aquilo que julgamos realmente importante.

Cícero
foto divulgação

À Deriva é bem agitada e sua bateria e percussão convidam a arriscar aquela dançadinha na pista. Uma boa faixa para se começar a ouvir o disco caso você fique com dúvida ao longo do texto.

A Cidade foi o single que divulgou o disco e que já foi lançado com um videoclipe bem bacanudo! O clima segue bem fúnebre e soturno com sopros e toque de caixa marchando em direção a narrativa de Cícero que por horas se apoia na tragédia e por horas na esperança do amanhã.

Velho Sítio remete mais aos trabalhos anteriores do músico e o arranjo minimalista com a voz de Cícero se sobrepondo e sendo o centro das atenções. O prato marca o tempo de Velho Sítio enquanto a guitarra de Gabriel e o órgão eletrônico de Bruno dão o ar melancólico que a canção pede.

A Rua Mais Deserta mostra um Cícero observador da cidade narrando-a de forma sutil e despretensiosa. Acho a melodia bem contemplativa, ainda que a letra sugira confusão e tumulto.

É uma das faixas que mais gosto, acho que justamente pela calma que esse conflito me traz. Alguma coisa por aqui me cheira a Chico Buarque ainda que eu não saiba apontador diretamente o que é, sendo assim fiquem à vontade para me contar caso encontrem.

A Grande Onda é também uma canção agitada, como as do começo do disco. As ruas da cidade mais uma vez servem de pano para os acontecimentos, nesse caso uma grande onda…não se sabe se literal ou população enfurecida.

“‘Vem ver
o tumulto do alto
nosso mar de asfalto, ferro e pó
Vem ver
a ferrugem de dentro
o mar de pavimento e fios em nó
Vem ver
sob ansiolíticos
sob anfetamínicos
nossa ilusão
Vem ver
envergando os prédios
inundando os becos
da nossa visão
O dia da grande onda”

Aquele Adeus o romantismo atinge seu ápice nessa canção que segue como a mais delicada dentre as 10 faixas inéditas de Cícero & Albatroz. Os arranjos ficam por conta de guitarra e do Wurlitzer.
É aquela canção de fim de relacionamento onde 1 dos 2 sofre um pouquinho? É sim!

Um Arco é a última do disco e cumpre bem esse papel, vindo calma e deixando aquela vontade de que tivesse mais uma musiquinha para escutar, até que engrandece e fica com ares de caos e inquietude.
Os sons se tornam pura confusão até que um arranjo de cordas encabeçado por um violino traz tudo outra vez a normalidade até que a faixa acabe.

Cícero & Albatroz é um álbum leve e de fácil aderência aos ouvidos, principalmente se você já conhece o som de Cícero ou escuta outras bandas que compõem o cenário independente nacional da mpb e indie.

O formato com banda dá um ar mais robusto ao som e as apresentações ao vivo certamente prometem um espetáculo mais elaborado do que de costume nesse 4º álbum de carreira.

Cícero parece começar a perceber que o controle de sua música é todo seu e com isso deixa cada vez mais transparecer as inquietações sonoras que carrega. Basta ouvir seus trabalhos e perceber o viés que cada um carrega em si ao longo de suas faixas.

Esse trabalho novo é bom e como todo os anteriores é bem autoral, mas sem beirar o autoritário. Ele consegue entregar o que quer com o que queremos ouvir, de uma forma muito fluída e natural, fazendo com que seu álbum passe a categoria de ‘mais ouvido’ em nossas playlists pessoais logo após as primeiras audições.

Cabe a você aceitar ou não esse voo!

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