César Lacerda – tudo tudo tudo tudo #EuOuvi

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A vida anda pesada, né?

Acho que não há lugar do mundo hoje onde não se sinta a necessidade de uma puxada no freio de mão, uma respirada funda, uma olhada ao redor, estampar alguma coragem nos olhos e daí seguir em frente.

O terceiro disco solo de César Lacerda cumpre um pouco essa missão de dar uma ‘renovada’ onde tudo soa como desinteresse, mesmice e cansaço.

É um disco que bebeu da água dos clássicos dos anos 80 (Calcanhoto, Herbert Viana, Nando Reis, Lulu Santos) principalmente pelo romantismo das letras e em algumas faixas pela sonoridade conseguida.

Uma voz que soa forte, mesmo quando se faz sussurro!

César Lacerda
foto Daryan Dornelles

Ao contrário de seus trabalhos anteriores, esse último álbum tem propositalmente a missão de caminhar com maior facilidade pelo mainstream e conseguir atingir o maior número de pessoas possíveis.

Não é apenas deslumbramento do artista, talvez um pouco, mas não pela condição em si e sim pela possibilidade de que poderia fazê-lo.

Em um momento em que as apostas musicais andam parecidas e soam como fórmulas pré definidas, César Lacerda dá uma desviada leve na rota e apresenta o inesperado, que para nós chega em boa e certeira hora e com ares de urgência.

tudo tudo tudo tudo (2017) chega em um momento em que por mais que as pessoas se reúnam em torno de festivais grandiosos com 500 bandas, 10 toneladas de equipamentos, fogos, cervejas, super telões e tudo o mais que se faça hipérbole, o sentimento de que precisam aponta muito mais para o cuidado, o sereno, a atenção para fora e não para dentro…falta acalanto em meio ao canto!

César Lacerda - Álbum Tudo Tudo Tudo Tudo
foto cd

E o álbum começa com a deliciosa ‘Tudo Vai Passar’, que inicia com percussão minimalista, violão e piano em progressão dentro da faixa, com ares de corrida e pressa, como quem tenta pegar algo que está escapando.

Cesar Lacerda lá está para confortar com algo como: calma…não é tão importante assim! não se desgaste, pois isso vai passar!

É mais do que apenas um lembrete escrito num papel ou no despertador do celular.
Lacerda soa como aquele amigo que fala: Senta aqui! Eu tô com você nesse mesmo barco e a gente só precisa ter um pouco de paciência.

E isso serve para o governo, para a falta de amor, pros nossos anseios e receios….serve pra vida toda!

‘Quando Alguém’
tem uma pitada de violão, assobios em coro, estalar de dedos, e uma escaleta tranquila que reforça os ares de folk.

A surpresa gostosa na segunda faixa é a presença de Maria Gadú que ajuda a transformar a canção em uma espécie de cartilha afetiva que aponta pra empatia.

‘Me Adora’ é uma regravação daquelas que a gente aponta, pelo menos no meu caso, como versão melhor do que a original (mas é questão de gosto apenas).
Ela é uma versão mais bossa e composta delicadamente por voz + violão + trio de flautas em contraponto com a versão rock criada pela Pitty.

Gravada originalmente dentro da proposta rockeira da qual ela faz parte, acho que o que confere a diferença entre as duas versões é o fato de que o discurso dela tem ares de rebeldia enquanto a versão de César Lacerda caminha por notas mais tranquilas e seguras de si. Ele não briga, apenas constata a situação e alerta que o amanhã pode ser tarde demais. Como se fazendo menção a faixa número 1 do disco e lembrando que em breve tudo vai passar, de uma forma ou outra.

‘O Marrom da Sua Cor’ apesar de César Lacerda ser mineiro esse som ficou com uma cara gostosa de samba daqueles criados na Bahia, ou ao menos tendo ela em mente.

Até a letra falando sobre a promessa metafórica de barcos no mar, a cor da pele marrom, acho que tudo isso tem um quê de Caymmi e para deixar ainda mais curioso a voz fica bem próxima de um João Gilberto.

Podia ser mais bacana? Não! Confesso que acabo escutando um pouco de ‘Saudades da Bahia’ nessa faixa.

‘Por Que Você Mora Assim Tão Longe’ traz um ‘quê’ de romance impossível e esperançoso ainda que cheio de pesar. Talvez a música com mais sentimento dentre as 10 do álbum.

Sabe aquela vontade louca de ficar perto? Essa música trata disso lindamente!
Baixo, violão, violinos, violoncellos, piano, sintetizadores e bateria compõe o arranjo dessa beleza aqui,  mas a versão mais interessante e que te fará escorrer pelo sofá é a com voz e violão.

‘Fim da Linha’ o nome da música é sugestiva e o trompete jazzístico que se sobressai ao longo dela faz contraponto certeiro com resto dos instrumentos. O primeiro sugere perda e encerramento, enquanto o resto entrega esperança e reencontro pessoal.

De alguma forma o álbum é um tanto cíclico no sentido de que todas as canções apontam para a ideia central de que ‘isso também vai passar’ e essa faixa não foge a isso.

ӎ o fim da linha,
meu último abraço
de punho cerrado
e o peito apertado
é o fim da linha,
o chão da ladeira
o fim da canseira
meu único espaço
um lugar pra ver o sol brilhar em mim
seus raios,
seu lume
se não fosse o meu lugar,
seria, amor,
o nosso presente
o nosso segredo: uma promessa

então, eu vou fugir daí
voltar pra mim
eu vou”

‘Por Um Segundo’ escrita em parceria com Rômulo Fróes, com quem já havia gravado um disco inteiro recentemente, tem um ar melancólico e sugere um papo confessional daquele cara apaixonado. Você não vai deixar de um ouvir um cara apaixonado abrindo o coração, né?

”por um segundo, confesso, eu imaginei
que o mundo inteiro fazia um silêncio pra nós.
cem mil pessoas queriam que a gente se visse ali,
e nós dois também!”

‘Sei Lá, Mil Coisas’ um popzão com cara de que saiu dos anos 80 e com guitarras foragidas da década de 70 e deixando escorrer entre as notas um pouco de surf music. Boa, mas confesso que não me pegou de primeira!

‘O Homem Nu’ um riff bacaninha de guitarra, baixo, percussão, piano elétrico e sintetizadores são a mistura perfeita para esse outra faixa que flerta com o pop sem soar datada. Gosto do som eletrônico, do barulho de dedo percorrendo as cordas e da cara nova que César Lacerda traz à mpb.

‘Percebi Seus Olhos em Mim’ somente voz, piano e sentimento.
Me admira a facilidade com que César Lacerda canta de um jeito bonito o que poderia soar apenas como o cotidiano. E por isso ‘Percebi Seus Olhos em Mim’ é umas das minhas preferidas dentro da obra desse mineiro de voz branda e letras cheias de sentimento.

tudo tudo tudo tudo é um respiro equilibrado, gentil e inteligente dentre os lançamentos de 2017. Nem muito para um lado e nem para o outro, eu vejo uma obra que se faz necessária, ainda que seja por um período de tempo determinado, e que teve coragem de ser o que precisava ser ao invés de se tornar algo apenas com ares mercadológicos.
Certo de que tudo, inclusive ele, vai passar…mas nesse caso deixando boas memórias!

Como o cd foi lançado muito recentemente é de se esperar que em breve existam shows pela sua cidade, seja ela qual for, sendo assim vale acompanhar o trabalho do César Lacerda por aqui.

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