Luedji Luna – Um corpo no Mundo #EuOuvi

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Um Corpo no Mundo! O nome do álbum por si só já da indícios do que Luedji Luna quer nos trazer a sua musicalidade e sonoridade revestidas por todos os lados de histórias, vivências, percepções e análises.

Um corpo com cor, com dor, com suor e porque não dizer…com sorte!
Por ser quem é e mais do que isso, por ser quem desejou ser!

Nascida na Bahia e tendo contato com a música desde bem nova, Luedji sempre se envolveu com movimentos artísticos, certamente uma vontade latente a impelia a isso, talvez para atender ao chamado musical que nela habitava ou pela necessidade de se conhecer, de se mostrar ao mundo com uma representatividade diferente a qual o mundo a via, de ocupar sua posição de acordo com o que a sua ancestralidade exigia.

Ancestralidade essa que estava ali presente, próxima, viva e pulsante!

Um Corpo no Mundo (2017) é o primeiro álbum da artista e tem a intenção de trazer a história, a identidade e mostrar a beleza que envolve a cultura negra. Luedji relembra e nos conta suas transições de enfrentamento pelo mundo que veladamente, as vezes até que de forma bem explícita,  subjuga a cor negra.  E ao final do processo Luedji termina nos agraciando com sua transmutação ao posto de conhecedora plena e total de sua raça e mais do que isso, a imutável condição de dona de si.

capa do cd

O disco possui 10 faixas, foi gravado na Bahia e tem produção do músico sueco radicado na terra da capoeira, Sebastian Notini, conhecido por ótimos trabalhos com outros artistas soteropolitanos.

Suas influências musicais são Djavan, Bituca e o Negro Gato além de uma porção boa de reggae, vindo principalmente das referências sonoras de seu pai. Graças a ele Luedji tinha frequentemente por perto Gregory Isaac, Alpha Blond, Peter Tosh e outros grandes artistas.
E sobre quem faz música hoje ela fala sem reservas que se identifica com Sara Tavares, Mayra Andrade, Aline Frazão e o baiano Tiganá Santana.

No entanto se perguntada sobre quem ou quando foi o momento divisor de águas que lhe deixou claro que precisava fazer música, ela dirá que foi o grupo Raciocínio Lento, formado por amigos de trabalho do seu pai e que tocava aos fins de semana no quintal de sua casa o que de melhor existia no cancioneiro brasileiro.

O álbum começa com ‘Asas’, canção que carrega ares de cântico e de prece com notas breves e leves de quem comunga em sintonia com a natureza em tom de igualdade, pois entendem que são coisa única.
O violão ajuda a conferir a música um aspecto de mantra e duvido que você não se sinta mais relaxado ao terminar de ouvi-la até o fim.

‘Dentro Ali’ possui uma linha de percussão com forte atabaque que segue guiado pela voz de Luedji Luna. Parte da força musical desse álbum, e dessa canção em particular, vem dessa concordância de voz delicada com a força das mãos ecoando sobre as peles de tambor.
Violão e baixo discretamente, esse 2º mais evidente, sugerem ares de jazz e daí vem as curvas sonoras que complementam a retidão das batidas.

“Me leve a um lugar distante
Me ajude a carregar
Essa maleta
Onde eu guardo meu cansaço
E meus sonhos mais bonitos
E um livro de receitas naturais
E um terço pra um pai nosso
Um pedaço pão
E um lápis, um caderno
E a vida de meus filhos”

Em ‘Eu Sou uma Árvore Bonita’ acho interessante o jeito que o coral enriquece a música. São arranjos simples, característica comum ao álbum todo, e que deixam as faixas com ares de intimidade, onde só o essencial aparece.

‘Um Corpo no Mundo’ dá nome ao álbum e é uma narrativa que trata da resistência (Je suis ici, ainda que não queiram não) e expõe duras verdades à sociedade. As cordas e sopros dão um clima dramático e linear, algo parecido com o que é feito no cinema ‘noir’ enquanto atabaque segue reto e sustentando os passos de lamento e perseverança histórica.

”Cada rua dessa cidade cinza sou eu
Olhares brancos me fitam
Há perigo nas esquinas
E eu falo mais de três línguas”

‘Acalanto’ foi a primeira música da Luedji que me pegou pela mão e me tirou pra dançar.
A versão do Spotify, por ser a de estúdio, tem jeitão mais sério e com preocupação de sair toda certinha. Por isso que eu aconselho escutar essa versão aqui que é a que mora em meu celular.
Acalanto tem ares de nova mpb, um swing carregado de tropicalidade, musicalidade nas cordas e canto sem pressa, declamado, material humano cheio de sentimento que vira poesia e que mais uma vez evoca o sentir com desejo e sinceridade ao dizer ‘eu não presto’ e ao perguntar ‘quem é que vai ser acalanto agora?’

‘Notícias de Salvador’ Luedji que hoje mora em São Paulo parece aqui fazer uma análise sobre a humanidade e sua atual falta de sensibilidade ao receber e aceitar o próximo e suas condições.

Existe na letra um mensagem meio mórbida e de desistência, mas que entendo como uma retaliação ao fato de que se aceita (boa parte das pessoas) viver a vida de uma forma que elas não ‘escolhem’ viver. É uma canção toda acompanhada com violão, o que a deixa com cara de ‘saudades de casa’.

”Que nos sirva de consolo
Lâmpadas acesas, catástrofes pessoais
Que o amor possa comover
Que nos sirva de consolo o cheiro de gás
Capaz de nos socorrer
De manhãs, noites e tardes iguais”

foto reprodução

‘Saudação Malungo’ faz uso de algumas palavras que podem causar estranhamento, entre elas nomes de Província Angolanas (Uíge, Cabinda, Benguela, Luba), República Democráticas do Congo (Lunda, Zaire) grupos étnicos (Bacongos), Cerimônia que culminou na Revolução Haitiana (Bois Caiman) e a própria palavra ‘Malungo’ que pode significar parceiro/amigo ou então um tipo de embarcação, ambas as definições atreladas ao período da escravidão.
Tem arranjos simples e intimista de violões e foco no belo canto de Luedji.

‘Cabô’ O reggae aqui se faz presente de forma bem marcante, sobretudo pelos sopros.
A letra sugere 2 mortes e com a ela a inevitabilidade da não reposição que a violência impõe a todos, independente de idade, responsabilidade ou inocência.

”Quem vai pagar a conta?
Quem vai contar os corpos?
Quem vai catar os cacos dos corações?
Quem vai apagar as recordações?
Quem vai secar cada gota
De suor e sangue
Cada gota de suor e sangue”

‘Na Beira’ tem cara de ciranda e junto a ‘Banho de Folhas’ são as canções mais baianas do álbum. A percussão, sobretudo afoxé, é responsável por você aos poucos movimentar os pés de um lado a outro, ainda que, como eu,  você possua pouca habilidade para dança.
Os metais são mais presentes, no entanto não chamam pra si a atenção.
Eu que sempre dou pitaco sobre qual seria a canção ideal (ou algo que o valha) para se começar a ouvir determinado álbum e conhecê-lo, creio que Na Beira seja essa canção.

‘Banho de Folhas’ prossegue com os tambores afiados e as referência a baianidade de Luedji ficam mais explícitas pela sonoridade e de forma mais evidente através das letras que estão diretamente ligadas a termos do candomblé, religião de grande aderência sobretudo na Bahia. Se você não tinha sentido vontade de mexer os pés na faixa anterior aqui você simplesmente não poderá controlá-los.

foto reprodução

‘Iodo + Now Frágil’ encerra o álbum sendo uma mistura de canto com toques mais experimentais e espasmódicos vindo por parte dos metais, como se o músico fosse de alguma forma atormentado por algo e não pudesse tocar direito o seu instrumento. É interessante ver como o irregular encaixa tão bem com o protesto da Luedji e se firma como extensão do que ela tem a dizer.

Mais do que apenas uma música, Iodo + Now Frágil é um manifesto!

A letra segue como lembrança, alerta e afrontamento que mantém vivo a memória das injustiças que o estado comete contra todos nós em diferentes momentos e formas. É a música mais difícil de se ouvir do álbum pelo simples fato da estética ser bem diferente das anteriores e do caráter meio documental, mas essa é parte importante da riqueza de Um Corpo no Mundo.

O álbum é sólido, simples e direto como algumas pessoas não gostariam que fosse, pois ele gira em torno de uma temática bem explícita e se mantém fiel a ela até o fim, ultrapassando a beleza estética, e mostrando uma verdade quem nem todos tem sangue frio para encarar de frente.

Das músicas a sensação e vontade de dança por vezes vem mais do peito do que das pernas, mas tudo bem se você apenas contemplar o álbum enquanto o escuta. E ao terminá-lo fica claro que desde o início não era com a vontade ‘de dizer’ que Luedji se mostrava que nós nos envolvíamos e sim com a nossa ‘necessidade em ouvir’…e ela disse tudo o que precisávamos!

E se quiser ficar por dentro da agenda dela é só segui-la no Facebook, pois ela mantém as coisas bem atualizadinhas. Clica aqui!

No mais, seguimos com o desejo de que o amor possa comover!

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