Selton – Manifesto Tropicale #EuOuvi

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Se você já passou aqui pelo departamento #EuOuvi  dentro do Checklist, talvez já tenha notado que a preferência tem sido por bandas nacionais, com um ou outro desvio de percurso, mas a ideia é mostrar o que tem sido criado em território brasileiro e que nem sempre tem a atenção que merece nas terras tupiniquins.

Dessa vez dei uma roubada nesse critério, mas creio que vocês vão me compreender após a explicação sobre o grupo Selton. Formado por Ramiro Levy (voz, guitarra e ukelele), Ricardo Fischmann (voz, guitarra e teclado), Eduardo Stein Dechtiar (voz e baixo) e Daniel Plentz (voz, bateria e mpc)  o quarteto desde a década passada, ali por volta de 2007, vem fazendo um som bem bacana e cheio de pluralidade.

foto reprodução

São 4 brasileiros que se conheceram em Barcelona, resolveram fazer música juntos e de repente estavam fazendo uns covers, se apresentando nas ruas da cidade e fazendo alguns shows em pequenos festivais. Então, de uma hora para outra, foram convidados a produzir um disco próprio em Milão (Itália). Pois é…bem assim! Desde essa época não pararam de produzir e se firmaram na cena indie italiana.

E as letras das canções? São em italiano, inglês, espanhol e português.
Às vezes sai tudo junto numa letra só, e pasmem… fica bom o resultado!

O som dos caras é pra cima! Sabe aquela banda super descolada e com som gostoso que você não conhece mas se apaixona de cara quando a escuta tocando? São esses caras! A música deles tem cara de comercial novo de iPod! (cês sabem que isso é um puta elogio, né?)

O quinto álbum do grupo, Manifesto Tropicale (2017), permeia o tema ‘migração’ em suas canções e junto ao tema central surgem questões como a dura despedida dos que ficam para trás, de se integrar a novas culturas, assimilar outros costumes sem perder os seus próprios e no fim das contas admirar a beleza desse encantador e interminável processo.

Existe também a esse álbum inspiração no Manifesto Antropofágico (Oswald de Andrade) e por isso os temas decorrem nessa tentativa de assimilar os povos de culturas metamorfoseadas em que nos tornamos e desse ponto para trás remontar o caminho que esclarece qual a nossa origem e como o Brasil se apresenta a partir desse quebra-cabeças multicultural do qual ele é formado.

capa cd – Manisfesto Tropicale

‘Terraferma’ tem um violãozinho delicado e coral gostosos de se ouvir, numa canção que com o tempo cresce e ganha ares de aventura. Tal mudança é pertinente já que a letra tem esse tom de saída de casa, deixando o lar para trás e saindo em viagem para a descoberta do mundo.

Acho fenomenal quando a música transmite essa sensibilidade complementar de voz + melodias.

‘Luna in Riviera’ começa com um ar bem sessentista  (lembra as músicas da abertura do Amary Junior? Pois é!) mas rapidamente se volta a algo mais moderno trazendo uma espécie de eletro-pop com raízes fincadas numa sonoridade mais retrô como citei anteriormente.
Com baixo e percussão bem resolvidos dentro da faixa, essa talvez seja a canção do disco que melhor descreva o trabalho da banda, ainda que eu não ache que seja a mais acessível sonoramente.

Vale assistir ao clipe e sentir um pouco da vibe dos caras!

‘Sampleando Devendra’  tem violão carregadíssimo de brasilidade e uma mistura de idiomas que traz um ar super bacana ao resultado final.

As partes em espanhol tem um puxada mais swingada e lembram entre seus elementos, um deles as palmas, algo relacionado a cumbia ou a salsa, e certamente a lamentação da letra contribui com essa percepção. Tem uma latinidade mais forte aqui!

‘Cuoricini’ é bem tropical e alterna o tom leve do ukulele com um momentos mais pesados que acompanham a nada ‘politicamente correta’ expressão vaffanculo, mas não torna a canção agressiva.

Um som tropical-eletro-pop que casa muito bem com as letras e vozes e que rendeu um bom clipe!

‘Jael’ e ‘Bem Devagar’ não são letras complementares, mas ambas carregam uma carga grande de melancolia e trazem a tona a ideia de saudade e solidão. Seja por um amor que se perdeu com o tempo ou com a perda de um ente querido.

E como as letras dizem…É como perder uma parte de nós mesmos!

”Perder você é ter mais tempo livre, não conseguir fazer nada
É perder a memória a prestação
Perder você é acordar num travesseiro desconhecido
Descobrir tudo de novo bem devagar”

‘Stella Rossa’ é cantada em italiano e português e vai sendo calmamente declamada ditando um ritmo de brasilidades nas cordas do violão. É uma música mais paradona e conceitual, que leva a umas viagens ou momentos mais introspectivos.

”Oooh sei tu
Stella rossa
Che mi fai guardare su
Oooh sei tu, sei tu
Stella rossa
Che mi fai cantare

Eu quero evaporar
Chegar mais longe do que o sol
Pra ver de novo como a Terra é azul
Preciso te falar
Falta uma estrela no céu do hemisfério sul”

foto reprodução

‘Tupi or Not Tupi’ remete a uma sonoridade ao norte do Brasil que ainda de forma bem sintética é facilmente identificável e perceptível. Existe também uma porção de referências e jogo de palavras dentro dela, seja no emprego das palavras ‘índio’ e ‘indie’ ou na referência de uma das atuais rainhas do pop ao cantarem a frase ‘Bitch better have my money’.

É outra canção que parece sonoramente datada, mas ao mesmo tempo trabalha com elementos atuais  no liricismo e no emprego dos elementos eletrônicos incluídos.

No fim das contas fica com cara de canção tipo exportação, daquelas com um monte de referências juntas e que agradam aos ouvidos de fora do Brasil justamente pela exoticidade.

‘Lunedi’ constata a dura verdade de que querendo ou não o tempo e a vida passam e não há como se desfazer isso. A faixa questiona se vale mesmo a pena ver a vida passar pela janela.
Cantada toda em italiano a música parece ganhar um sopro mais erudito em alguns momentos. No fim das contas ela soa como uma viagem solitária (com sorriso de canto de boca no rosto) de lambreta pelas estradas italianas enquanto se repensa a vida e o que ela nos presenteou.

‘Avoar’ começa cheia de inserções aleatórias de falas comuns, todas em português, assim como a canção minimalista que compõe-se mais a frente, de apenas quatro frases.

A música segue quase toda num dedilhar gostoso de violão com ares de interior do Brasil e começa e termina sem alardes, com cara de despedida e dessa forma encerra bem os poucos, porém bem aproveitados 33 minutos de álbum.

poster com arte da capa do cd

Selton entrega um som que só pelo ineditismo do modo como é cantado (vários idiomas na mesma música) já é bem original. No entanto engana-se que essa é a cereja do bolo do trabalho deles, pois existe uma preocupação real em se fazer música com qualidade e principalmente que comunica algo.

A música deles tem um dedo no futuro ao mesmo tempo que rola um resgate do passado, não o musical e sim o deles. Como se as letras estivessem ‘maturando’ durante esse tempo em que estiveram fora do Brasil e agora elas estão saindo em etapas, conforme ficam prontas.

Se você ficou à vontade com Manifesto Tropicale vale muito a pena conhecer o resto da discografia deles! E aproveita para acompanhar o que eles andam fazendo aqui pelo Facebook.

Un grande bacio! 😉

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