Castello Branco – Sintoma #EuOuvi

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Nota desse mortal aqui: A palavra sintoma, ainda que comumente relacionada a estados do corpo relacionados a doenças, pode significar indício, sinal, traço, intuição, presságio ou ainda pressentimento.

Sobre a escolha do nome do disco eu não posso afirmar qual foi a real intenção de Lucas Domênico Castello Branco Gallo, conhecido no meio artístico apenas como Castello Branco. No entanto ao escutarmos seu segundo álbum de estúdio Sintoma (2017), lançado no começo desse mês, fica evidente que se esse sintoma é presságio de algo, podemos afirmar que esse algo é algum tipo de reencontro pessoal, de cura ou até mesmo de paz.

Capa Álbum

Há quem ache que as músicas de Lucas transmitem algo religioso, de devoção ou até mesmo muito espiritualizado e existe alguma razão nessas afirmações. Ele foi criado em um monastério na companhia de sua mãe e por lá aprendeu a viver sob uma ótica diferente da que estamos habituados aqui desse lado impessoal dos muros.

E foi com esse intenso contato com ares de ‘sagrado’ e aprendendo a viver em conformidade e aceitação a leis de pobreza, obediência e castidade que o menino Castello Branco cresceu. Por outro lado as canções não exigem nenhum tipo de pré-conhecimento em nenhuma área e muito menos uma visão holística sobre a vida e como a vivemos.

Tenho pra mim que é muito de sensibilidade de cada um, mais do que as pessoas às vezes se permitem ao terem contato com música, e sendo assim quem é de sentir simplesmente sente. É um álbum que economiza nos arranjos, mas não na musicalidade, e soa como uma transposição das imprevisibilidades e ocorrências da vida de Castello Branco, e para além dela, ao universo dos fonogramas.

Antes de tudo e de qualquer análise sonora e lírica a impressão que tive desde o início, e que raramente eu encontro de forma tão explícita, é que Sintoma é um álbum honesto!

Gravado no Rio de Janeiro e com produção musical do próprio Castello Branco, ao lado de Lôu Caldeira e Ico dos Anjos, Sintoma foi bem recebido no cenário nacional. Aos poucos os shows já começam a se confirmar e o Rio de Janeiro é local garantido de apresentação.

ilustração: Ju Sting

O ‘Peso do Meu Coração’ abre o álbum e segundo Lucas contém uma frequência de meditação. A presença da flauta transversa e a calma do violão acabam mesmo por deixar a faixa com ar bem contemplativo, mas sem beirar o monótono como alguns podem supôr. Ao contrário disso, a primeira faixa do disco te puxa a conhecer todo o resto.

”Você não é
Quem você pensa que é
Você não tem
Quem você pensa que tem

Pra entender o amor
Faça um trato com a fé
Diz que o céu, quando quer
Força o braço que for
E abrir o mar aí
E abrir o mar, aí”

‘Providência’ apresenta uma dose de reverbs e segue dando destaque ao gostoso dueto das vozes de Castello Branco e Mãeana sobrepostas. Essa música é o que alguns chamam de ‘nova mpb’, com toques de eletrônico de forma bem centrada e certeira e que obedece a ordem natural do envolvimento do artista com o segmento nos últimos anos. Segundo ele o DJ é o novo poeta e ele tem alguma razão ao dizê-lo…não toda, mas alguma!

‘Coragem’ é a terceira faixa do disco e gosto do jeito particular como ela surge e rapidamente me remeteu ao clima mais interiorano, com cara de gente que recosta no vento para descansar.

Essa impressão foi reforçada quando a percussão assume ares de Maria Fumaça diante do verso ‘Que não tem mais esse trem de homem’.

No verso “Mas se conhecer de verdade; Coragem, que coragem” foi impossível para mim não fazer um ligação com Guimarães Rosa que ao falar sobre a vida e seus altos e baixos, conclui que ‘O que ela quer da gente é coragem’ .

Talvez seja isso que a música tente nos dizer de alguma forma. Ouvir o que a vida tem a nos dizer e quando necessário fazer uso da coragem que ela nos exige para que nos reconheçamos sempre como ‘algo mais’.

imagem: reprodução

A canção ‘Não me Confunda’ é quase uma sequência sonora natural de coragem e a gente consegue sentir um ar de confissão nervosa acompanhada de batidas secas (poder ser do coração, não? pra mim são) daquelas que a gente fala com a garganta apertada, mas que quando saem… uffa! que maravilha quando a gente consegue falar essas coisas!

O som de sintetizadores aqui é mais fácil de ser percebido e isso em nada tira a beleza da canção. Na verdade são esses elementos que fazem das músicas de Lucas um som híbrido que caminha bem em diversos tipos de ouvido.

‘Do Interior’ tem uma percussão maranhense mais evidente, cortesia de Ico dos Anjos, e conta com a voz de Verônica Bonfim como apoio a voz de Castello, que dessa vez está com tom mais delicado do que em seu álbum de estreia.

‘Cara a Cara’ tem uma melodia gostosa, mas não meu pegou tanto quanto as demais canções. Achei um pouquinho arrastada e acaba não dando o valor à letra bacana que carrega. Ela é cantada até de um jeito mais pausado e também não sei se isso contribui pra minha opinião.

‘Nascer do Sômm’ é delicadeza só e a voz de Filipe Catto, convidado que canta sozinho no faixa, ficou simplesmente sensacional dentro da doçura das cordas.

‘Meu Reino’ é uma canção mais fria, com poucos elementos e todos bem discretos, enquanto a música se desenrola num tom sussurrado, até meio apático, perambulando entre o desejo e a dúvida.

“Meu cantinho é do teu ladinho, uai
Me enfeitou
Meu reino é todo teu
Meu cantinho é do teu ladinho
Só nasce onde sobrevive
Meu reino é todo teu
Meu reino é todo teu
Meu reino todinho”

‘Evidente’ é minha faixa preferida! As cordas, os sopros, o ar provocador do maracatu dizendo ao corpo pra não ficar parado e a voz graciosa de Castello Branco mudando de tom. Do furtivo ao festivo, ele traz um carga emotiva que te carrega as pernas pro meio da roda e os ouvidos pra algum outro lugar. Na minha opinião vale começar a ouvir o álbum por aqui, caso você ainda não tenha dado play aí por cima.

‘Estou Afim’ é uma declaração muito da gostosinha e com ar apaixonado. Segue a linha das demais faixas do álbum sem mostrar muita novidade ou surpresa.

‘Assuma’ encerra o álbum com a participação de (Tomás Tróia, responsável pelo riff da faixa) numa canção bem gostosa. Ouso dizer que é a mais charmosa do álbum. Poesia sobre violão, da pra ser melhor?

Bom…a leitura que eu faço do Sintoma é a de um apanhado bem coeso de músicas que retratam uma experiência pessoal forte. Não relacionado somente a vivência de quem as canta, mas de como ele observa as coisas ao seu redor.

E fechando com palavras do próprio Castello Branco:

“As pessoas que olharem a capa, ouvirem o disco e ainda tiverem alguma dúvida sobre do que exatamente estou falando, posso acrescentar sutilmente que o ‘Sintoma’ é um espelho. Para uma íris sem véu, olhar-se não é vaidade. É como adentrar num portal de cura.

O som, sabiamente batizado como ‘Ufolclórico’ pelo cascudo Lôu Caldeira, determina a união das minhas inúmeras referências brasileiras com outras cósmicas. Essa foi a nossa vivência durante os últimos oito meses e foi junto ao maranhense Ico dos Anjos que então resolvemos concretizá-la.

Todo o amor, Castello Branco.”

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