Porcas Borboletas – Momento Íntimo #EuOuvi

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Eu conheci o som do Porcas Borboletas lá por 2008 quando uma amiga queridona sacou do bolso o som ‘Lembrancinha’ do feliz lançamento Um Carinho com os Dentes de (2005) e que foi o pontapé inicial para que essa galera de Uberlândia adentrasse no circuito de bandas brasileiras bem sucedidas dentro e fora do território nacional.

Porcas é aquela banda que não dá pra descrever, porque o som dos caras sempre soará como algo diferente do que foi dito e essa falta de rótulos e de necessidade deles é o que traz consigo o melhor que os músicos Moita Mattos (guitarra), Pedro Gongom (bateria), Chelo Lion (baixo), Danislau (voz e violão), Ricardo Ramos (percussão) e Enzo Banzo (voz e violão)  têm a oferecer.

foto: reprodução

A produção de Momento Íntimo (2017) ficou nas mãos de Gustavo Ruiz, sim você conhece esse sobrenome, e segundo a banda ele foi decisivo em momentos em que se precisava bater um martelo e os integrantes simplesmente se emaranhavam em questões que demorariam horas para serem decididas. A propósito, entre as participações do álbum temos a voz de Tulipa, irmã de Gustavo, Luiz Chagas (Isca de Polícia; Itamar Assumpção), Nereu gargalo (Trio Mocotó), Juliana Perdigão (voz), Nath Calan (percussão), Quique Brown (Leptospirose) e Chicão (teclado) são os nomes que compõe a alquimia sonora desse 4º álbum do Porcas Borboletas.

As temáticas sempre foram variadas e de uma certa forma espontâneas ao falar do simples do non sense ao mesmo tempo (vocês sabiam que Silvio Santos morreu em 1984? Eles sim!) , mas se você cavar um significado mais focado dentro do liricismo da banda, vai perceber que o universo feminino sempre esteve pairando por ali querendo tudo como quem não quer nada. Seja na figura de mãe que erra no presente ao tentar agradar ao filho, na busca por Valéria, na bocarra que urra e na vez que ‘ela’ surgiu na nossa frente (eu faço parte desse time) gata pra caralho.

E a sonoridade dos caras perambula ali no rock, no indie e no que mais os caras criarem na hora. É em cima dessa pegada plural que o mais recente trabalho da banda cria, expõe e desconstrói o personagem central do álbum.

E você pergunta: Mas quem é esse personagem principal?
Respondo-lhe: Você homem másculo, viril, confiante, sedutor e com essa auto estima da porra!

As letras te pegam, estou incluso nesse balaio, e reviram do avesso a sua masculinidade mostrando que toda aquela confiança e peito estufado escondem um menino inseguro com o corpo, cheio de padrões que conflitam com o modo de viver que grita aos quatro ventos e sobretudo apavorado ao conhecer mulheres que são seguras de si em todos os aspectos.
Vale e reflexão de que ao desmascarar a fraqueza de um dos lados se eleva a força, por vezes oculta e não percebida do outro, ou seja, a mulher que dialoga com o personagem durante os sons é exatamente essa que ele acreditava não existir e agora teme por ter encontrado.

Capa do álbum

As guitarras falam mais alto na maioria das faixas e em ‘Sou o Que Dizem’ não é diferente. Era uma letra antiga esperando o momento certo para vir a tona e abre bem o álbum com um som bem seguro, pra cima e confiante nos arranjos, inclusive na maneira com interpola sintetizadores dentro da música.  É possivelmente a letra mais complexa do álbum e ótimo pontapé para você conhecer a banda.

‘Cara pra Casar’ é aquele ser mítico no qual ninguém acredita, mas que eles existem, existem!
O riff é quem segura a música, que soa como discurso pastelão e que não tira em nada a qualidade da mesma, e a cereja do bolo em minha opinião é o coro masculino defendendo aquele frágil espécime masculino fragilizado, em suas vozes graves e imperativas.

‘Maguila’ é a homenagem musical merecida que o nosso pugilista tupiniquim mais representativo, nada de Popó, poderia receber. Eu achei merecida a sua maneira, ainda que não compondo tão bem a narrativa do disco. Tem um ‘quê’ de ”Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder.”  A mesma impressão eu tive da faixa ‘Pimpolim’ que passeia pela história de um palhaço mirim.

Um baixo bacanudo é o que você encontra em ‘Derrota Transcendental’ e sua levada swingada, que dão super certo nesse som mais indie. É aquela faixa que o Spotify indica em ‘Novidades da Semana’ e você curte.

Surf music com teclados psicodélicos e pitada punk…‘Vamos Dançar’ é auto explicativa!
Se o álbum não te empolgou até agora essa é a faixa divisora de águas, a meu ver, pois não há All Star (ok, pode ser Converse) de cano longo capaz de não arriscar uns pulos e uns gritos com o punho em riste ao som da ambígua frase ‘Vamos nos fuder bonito’.

‘Momento Íntimo’, faixa que dá nome ao álbum,  também carrega um swing bacana, em parte pela percussão, e a letra carrega um plot twist com gosto de vitória. Se até o momento a nosso protagonista ‘progredia’ ladeira a baixo, temos certeza de que o Carnaval de Ubatuba foi sua salvação…sempre o Carnaval!

‘Ejaculação Precoce’ a faixa mais punk do álbum e que coincidência, referência ou viagem minha, ouvi no coral um grito soando muito como o coral ‘Inútchêlll’ que faz parte de uma famosa track da banda Ultraje a Rigor, além de uma debochada guitarra simulando o som dos carros de fórmula 1 passando a milhão. Particularmente um dos sons que mais me atrai dentre as 10 faixas.

‘Você Mentiu’ Aquela faixa engraçadinha, no naipe de ‘lembrancinha’ onde a gente sofre junto com o personagem principal da faixa e quando ri é meio de nervoso e medo de passar por algo igual.

Tulipa Ruiz cumpre bem o papel ao contar de maneira descompromissada, porém que atiça o seu companheiro, como foi seu dia. Ao som de coro cantando ‘ésex’, ‘openbar’ e ‘prafrentex’ essa é a faixa mais pop e de fácil digestão da banda, que não perde o sendo de humor mesmo na tragédia.

‘Partiu’ é a despedida melancólica carregada do politicamente incorreto na voz do protagonista do álbum. A verdade é que depois de tanto perrengue a despedida dele é meio em tom de – alguém anotou a placa do caminhão? – e você até sente uma certa empatia a essa altura.

Dá pra visualizar ele sentado na escada do prédio onde mora, no andar de casa, fazendo essa reflexão sobre a vida e cogitando dormir por ali, pois está perdido demais para entrar e encarar a vida.

Triste, né? Cuidado aí!

A banda já se encontrou musicalmente e entendeu que não ter fórmula pronta é a melhor forma de criar um trabalho que além de gerar identificação entrega satisfação pessoal a cada nascimento de álbum novo que sai as ruas.

Mantendo até o momento a tradição de lançamento de álbum a cada 4 anos, segundo eles é só coincidência, esse é a sua chance de apreciar na maior calma do mundo o som dos caras.
É uma banda que ‘abocanha’ a predileção sonora alheia pelas beiradas e que sabe muito bem que no fundo todo mundo carrega em si um parafuso frouxo, e para isso nada melhor do que…você sabe!

Deixando de lado meu trocadilho ruim, não deixa de seguir os caras clicando em Porcas Borboletas.

 

 

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