Carne Doce – Princesa #EuOuvi

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A banda goiana formada em 2013 e composta por Salma Jô, Macloys Aquino, João Victor Santana, Ricardo Machado, Aderson Maia é mais uma das promessas do cenário independente nacional e que desde o primeiro álbum homônimo recebeu diversos elogios pela crítica especializada.

O grupo apresenta mistas sonoridades, no entanto guitarras e baterias costumam se sobressair e dar uma cara mais Indie Rock (coisa leve, relaxa) e dentro desse esquema eles passeiam por outras vertentes (incluindo umas psicodelias) equilibrando riffs com distorções, baterias poderosas, mas sutis quando necessárias, e sobretudo com a ondulação de energia e sentimento que Salma carrega em sua voz.

O nome Carne Doce representa bem a dialética existente entre a candura da voz e o conteúdo aflito que suas letras carregam ao longo de todo o álbum Princesa (2016). Nome esse que também faz jus ao antagônico percurso narrado pela personagem do álbum que certamente não leva a vida de princesa que certamente gostaria de ter tido.

O que ela faz com isso? Cresce, se torna forte e independente a ponto de narrar todas as derrotas que a vida lhe premiou. Engana-se quem acha que força é bradar aos 4 ventos apenas as vitórias.

Capa álbum Princesa – foto: reprodução

Entre os diversos temas que o álbum carrega, boa parte das letras chamam a atenção por ressaltar ou apontar sem receios o lado machista e os infortúnios que ele causa dentro das relações homem mulher, seja a diminuindo, julgando ou tolhendo suas ações. Tal comportamento serve de gancho para que a protagonista se mostre maior através do declarado enfrentamento em suas falas.

‘Artemísia’, ‘O Pai’ e ‘Falo’ são faixas bem complementares, cada uma com sua narrativa culminando em diferentes esferas de relacionamento.

‘Artemísia’ tem pegada política e traz a tona o tema aborto. Os acordes da faixa dão um clima não de protesto, mas sim de manifesto pessoal, onde fica claro a vontade do discurso que diz que não vai acontecer simplesmente porque ela não quer e pronto!

Ӄ da minha natureza
É da minha arquitetura
É do meu querer”

‘O Pai’ fala sobre uma relação que certamente se baseava em momentos de abuso, não do corpo, mas sim do pensamento, umas vez que o pai sempre tinha razão, principalmente sobre ela.

Tal relação não a fazia gostar menos, ainda que não se sentisse a vontade com esse comportamento que a restringia em diversos momento, mas ainda sim ela busca na fúnebre faixa a benção do pai. A faixa tem um clima soturno, porém sem carregar morbidez, entregue pelas cordas e voz.

Em ‘Falo’ temos a ambiguidade entre o verbo falar e o órgão sexual masculino, ambos representados no título da faixa de número 10.  Aqui explode a voz nua de uma mulher forte e que revela sem panos quentes a verdade sobre o poder feminino carrega e que o masculino vem tentando sobrepujar há séculos. Essa faixa diz: Chega! Acho que a palavra Empoderamento cai bem na descrição desse som!

Dando um passo largo atrás voltamos a faixa que abre o álbum e que se chama ‘Cetapensânu’ e tem uma sonoridade bem bacana. A bateria é bem marcante na maioria das faixas, não por se sobrepor, mas por funcionar bem como cola aos demais instrumentos. É quase que essencial para que a identidade do Carne Seca esteja completa quando ganha vida fora das partituras.

A letra aqui é bem afrontosa e bate de frente com o sexo oposto!

”Cê tá pensâno o quê?
Cê tá pensâno que eu sô quem?
Cê tá bestâno pra cima de mim
Vai catá coquin
Cê bêsta, sô!”

foto: reprodução

A faixa mais dançante se chama ‘Princesa’ e como parte do álbum soa escancaradamente como una narrativa baseado no cotiano feminino, nesse caso representado por Salma, temos novamente uma conversa como foco principal da letra.

Aqui os papéis se invertem e um homem tenta, sobre riffs calmos e bateria constante, convencer a princesa a mudar de opinião sobre ele depois de conhecê-lo. Um complexo dispensável de última biscoito do pacote!

‘Sereno’ e ‘Amiga’ falam sobre saudade em diferentes esferas e momentos. A primeira, mais agitada, é sobre sentir falta dos momentos em família, enquanto a segunda usa teclados calmos e sóbrios para descrever uma adoração a si própria, porém carregada de solidão.

Coisa de quem quer sair de casa, mas que estava cansada das pessoas no geral, ainda que sinta falta de algumas em dados momentos.

‘Sombra’ começa com um efeito tipo rewind para depois soar delicada com um riff de guitarra desfilando pelo surf music, até que a bateria aparece fazendo contraponto e as guitarras descambam para uma linha mais animada quase folclórica. Salma usa efeitos na voz que ela mesma controla.

”Não se esqueceu de saltar a janela
Mas lhe faltou a coragem
Auto­-sabotagem
Uma virtude dela
Sempre soube que o voo dispensava a janela
Mas se encontrava a coragem
Auto-­sabotagem
Toda virtude dela”

Se a despeito de uma letra mais animadinha você também encontra uma narrativa depressiva e sem muita vontade de esconder, a não ser pelo ritmo, de que se trata sobre suicídio, então estamos juntos.

‘Eu te odeio’ segue somente com uma guitarra e voz, e como eu já disse aqui anteriormente no review Silva canta Marisa (me referindo a ‘Não é Fácil’ ) é pra ouvir ouvir no banho deslizando vagarosamente pelo blindex. O clipe oficial é feito por dois integrantes da banda, dentro de um…chuveiro! (sem blindex)

É lindo de ser assistido por ser bem cru e direto, levando a experiência da relação de forma bem nítida e direta em apenas um take de gravação. No entanto eu adoro essa versão ao vivo onde você consegue de certa forma conhecer um pouco mais da banda, da sua dinâmica no palco e flagrar Salma linda e sutil na interpretação da música e nos olhares apaixonados ao namorado. O clipe original está aqui!

‘Carne Lab’ é o momento experimental da banda dentro de Princesa. A música ocorre de forma regular até aproximadamente seus primeiros quatro minutos, com acordes simples e uma Salma utilizando uns reverbs na voz, tudo se encaixando sem chamar muita atenção, porém já mostrando ruídos, chiados, texturas e camadas sonoras se sobrepondo para entregar um material diferenciado.

O som  ganha ares de dub, ainda que não tão lisérgico e vai se prolongando em gostosa sonoridade ao longo de 10 extensos e essenciais minutos.

‘Açaí’ encerra o trabalho do grupo e apesar de ter sonoridade boa e bem swingada fecha de forma morna o álbum. Talvez seja a letra com menos impacto ou valor reflexivo dentro das 11 canções de princesa e soa mais como puro e simples entretenimento auditivo.

A galera segura bem o som e é essa a parte hipnotizante dessa faixa que também se prolonga por vários minutos e recebe uma dose boa de criatividade por parte do músicos, com pegada pop meio ska também. Acho até que deveria rolar uma bônus track só instrumental do início ao fim!

O clipe é uma colcha de retalhos com imagens da banda e é bem bacana!

Ao final do disco fica claro que Carne Doce não veio pra ser seu amiguinho troca likes, ou seja, não quer seu afeto auditivo na intenção de puxar o seu saco.

De forma alguma, eles querem que você saiba que a carne será dura, fibrosa, cheia de gordura e com tempero que não agrada a todos, mas que cabe a você usar esse seu molar de triturar  pragmatismos e canino de dilacerar preconceitos, para chegar ao doce sabor que ela guarda.

Carne doce é um presentão para quem não quer ouvir mais do mesmo e espera que uma banda vá além de um punhado de rostos bonitos, melodias chicletes e jabá!

Cetapensâno o quê?

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