Teresa Cristina – Canta Cartola #EuOuvi

Postado por

Eu quando era nova não queria saber de samba! Achava que era música de gente velha.
Eu gostava era do Barry White, Donna Summer e mais uma galera da Motown Records (selo fonográfico conhecido por abrigar gigantes da música negra Norte Americana).

Afirmava uma Teresa Cristina já a essa altura embevecida no samba de forma absoluta e inseparável!

E se ela gosta de samba hoje em dia podem culpar um senhor chamado Antônio Candeia Filho, conhecido pelo seu nome do meio, e responsável por despertar nela o sentimento de ‘deboche’ para então, anos mais tarde, fazê-la criar ‘admiração’ pelo seu trabalho.

foto: reprodução

”Meu pai, Seu Lula, era feirante. Quando ele ensacava limão para vender, eu zombava daquela música que ele ouvia na vitrola. Era Candeia. Anos depois, achei aquele disco e só entendi a maravilha que aquilo representava. Aquele disco começou a mudar a minha vida”

Ela relembra em entrevista concedida ao jornal O Dia.

Desde que conheceu Candeia e começou a se interessar sobre sua arte, ela ainda não cantava. Teresa, que é portelense, sempre esteve de paquera com as rodas de samba, e a faculdade à aproximou ainda mais, além de despertar o espírito de compositora que até então ela parecia não saber ter.

De lá pra cá foram projetos, barzinhos, rodas de samba em Madureira, na Lapa (com o Grupo Semente e no bar homônimo) até que sua voz e conhecimento sobre o samba a levaram a gravar Paulinho da Viola, e depois disso não havia mais quem a segurasse.

Seu último desafio foi cantar as músicas de Agenor de Oliveira, músico mangueirense e autor de sambas que transcendem tempos, vozes e estilos musicais.

É possível que você saiba cantar alguns sambas dele desconhecendo sua autoria e se não o fez esse é um oportuno momento para conhecer a obra de Cartola.

foto: reprodução

O álbum Teresa Cristina Canta Cartola (2016) pode ser encontrado no Spotify. Possui 18 faixas e totaliza aproximadamente 1 hora de duração.

Todas músicas do repertório já foram cantadas por Cartola, ainda que algumas não sejam de sua autoria, como é o caso de  ‘Pranto de Poeta, ‘Senhora tentação’ e ‘Preciso me Encontrar’.

O material foi todo gravado em voz e violão (Carlinhos 7 cordas é sensacional ao manusear o instrumento) o que exigiu grande habilidade de ambos, além de tornar mais explícito nuances que as musicas originais, sempre acompanhadas de percussão, talvez não mostrassem.

Dessa forma a gente vê uma gravação impecável, porém sem nenhuma ousadia por parte da voz de Teresa Cristina. Ela conhece bem o repertório e certamente entende o valor emocional de cada canção (ela comenta isso entre as faixas), porém não transmite esse sentimento na voz da mesma forma que as canções originais conseguem.

Teresa canta como quem não quer errar, da primeira a última faixa, e não emociona tanto quanto Cartola!

O tema das canções permeiam sempre o amor em seus diversos estágios, seja aceitação, negação, impossibilidade de amar ou até o amor em exagero. No entanto mesmo essas últimas carregam uma melancolia típica das letras do sambista da estação primeira.

Eu optei por fazer um apanhado das minhas preferidas e das que entendo que são as que soaram mais próximas ao trabalho original.

‘Acontece’ é uma faixa de lamentação onde o sambista revela que simplesmente deixou de amar a sua companheira e que prefere largá-la ao viver uma mentira ao seu lado.
Ele sabe da tristeza que traz com essa decisão, mas…acontece!
A letra é linda toda vida sendo daquelas mais poesia do que música!

‘Peito Vazio’ é aquela saudade que você sente de alguém, só que aqui ela aparece em forma de conteúdo lírico e dificilmente não vai te emocionar. Outros artistas já gravaram essa faixa e eu sou muito fã da versão da Roberta Sá + Ney Matogrosso.

‘Preciso me Encontrar’ sabe aquele momento em que você tá meio perdido e analisa friamente os momentos ruins? Quando você procura uma resposta, sem sucesso, e de repente a ficha cai e você percebe que o que você procura está dentro de você mesmo?
Pois é…sambista também passa por essas crises!
Essa música é maravilhosa e é tão sofrido para mim compará-la com a versão original ( que é boa demais, sobretudo o clima de suspense inicial antes dela começar de fato) mas a versão só voz e violão não deixou a desejar.

‘Alvorada’ é aquela declaração sobre o lugar onde se mora e ao mesmo tempo a mulher que se gosta. É talvez a letra menos sentimental do repertório. Eu curto essas letras de exaltação ao morro e os contrastes geralmente citados, onde gente com tão pouco consegue ainda sim ser muito em matéria de felicidade.

‘Rosas não Falam’ é a música que quando faz sentido para um homem é a hora dele acionar os amigos e dar um volta, praticar um esporte e tomar umas cervejas.

‘Sala de Recepção’ fecha a lista e segundo lenda foi escrita após um episódio ocorrido em dia de desfile,  envolvendo Cartola (Mangueira), Heitor dos Prazeres (Paz e Amor) e Paulo da Portela (Portela), e uma suposta proibição de Paulo poder desfilar sem ‘fantasia’ na própria escola que ajudou a fundar e sem a permissão também para seus amigos.
Momentos antes os 3 haviam desfilado sem problema alguma na Mangueira e na Paz e Amor.
Foi assim que Cartola escreveu os versos que dizem que a Estação Primeira recebe a todos muito bem, sejam eles amigos ou ‘inimigos’.

As letras de Cartola conseguem trazer uma complexidade de sentimentos sem a necessidade de palavras rebuscadas ou qualquer tipo de floreio linguístico.
Ele é direto, fala o que sente e exatamente como sente. Talvez seja isso, aliado a sua trajetória dentro do samba carioca, que ainda hoje desperte o interesse pelas suas composições e as tornem atemporais.
São experiências transpostas ao papel e a maioria delas, sobretudo as de amor, acabam nos tocando pelo simples fato de já termos vivido algo parecido em algum momento.

Como já dizia o capitão do mato Vinícius de Moraes:

”Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não”

E nessa justa homenagem feita por Teresa Cristina tem samba para dar e vender!

Viva Cartola!

Deixe seu comentário

Seu e-mail não será publicado. Os campos obrigatórios estão com *