Little Joy – Little Joy #EuOuvi

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Rodrigo Amarante (Los Hermanos) + Fabrizio Moretti (The Strokes) + Binki Shapiro

Foi esse o trio que trouxe boas expectativas, e as atendeu, lá atrás no já antigo ano de 2008 quando lançaram o álbum Little Joy (2008) homônimo a banda recém formada.

Gravado na Califórnia e com vocal dominado por Rodrigo, Binki e pequenas inserções vocais de Fabrizio, Little Joy não apareceu para salvar, resgatar ou impulsionar musicalmente o ano de 2008.

Ele veio pra ser confortável! Essa é a palavra que define a atmosfera romântica (sem ser piegas) e positiva do álbum, mesmo quando os casais das canções não terminam juntos.

A sonoridade dos três ainda que não tenha trazido nenhuma novidade soa como algo atual, que poderia ter sido feito hoje, e com referências nítidas aos apreciadores de Los Hermanos e de The Strokes, esse segundo em menor evidência.

Acho que reduzir o álbum a qualquer rótulo, incluindo o escrachado ‘surf music’ que realmente lembra muito o trabalho dos Beach Boys não chega a ser uma comparação justo em riqueza lírica e instrumental.

E amiguinhos…os caras estavam na Califórnia, praticamente de férias, recebendo influências diretas de onde moravam.
Pera lá, né!? Faz algum sentido esse shape (linguajar de surfista..eu acho!) que o álbum ganhou e não há nada tão diferente que não pudesse figurar num ‘Ventura’ da vida.

A sonoridade mais festiva e com cara de filme super 8 granulado, registrando meninas de maiô jogando enormes bolas de ar para cima, aparece em pelo menos metade dentre as 11 faixas do cd, que apenas ao fechar o álbum recebe uma música toda em português.

A música em questão se chama ‘Evaporar’ e ouvindo hoje fica bem nítido que é praticamente um prelúdio ao álbum Cavalo (2013) que seria também gravado em Los Angeles, de forma bem intimista em seu método de criação, e sendo posteriormente facilmente adaptado para as apresentações de Amarante ao violão.

As faixas ‘The Next Time Around’‘Brand new Start’‘No One’s Better Sake’ e ‘Keep Me In Mind’‘How to Hang a Warhol’ são as músicas mais animadas do álbum e responsáveis por manter o clima lá em cima.

Eu diria que ‘The Next Time Around’ é a faixa que mais tem a cara do trio, mas no entanto aconselho fortemente que se escute antes a animada ‘Brand New Start’ a qual a banda usa para terminar os shows. Ambas com carão de surf music vinda dos anos 60 e 70.

‘No One’s Better Sake’ tem um uma batera bem presente e com marcação quebrada, sendo sustentada por um não impressionante órgão e uns riffs de guitarra mais largados. É uma letra que fala de separação, mas se eu não tivesse dito você certamente não notaria.

‘How to Hang a Wharol’ tem uma pegada mais country e bem discontraidassa e dizendo:
– quer saber? Vou fazer o que eu curto torcendo para que outras pessoas também gostem, mas se não gostarem…tudo bem!

“But as long as I can’t get
Into Carnegie Hall
I keep writing songs
That are all my own
Very simple and dumb
Like I always have done
If you like them, yeah
But if you don’t, too bad
‘Cause it’s all I have”

‘Keep Me In Mind’ começa The Strokes e ao decorrer vai ficando com mais cara de Los Hermanos, mais precisamente cara de Amarante, para depois voltar a ser Strokes novamente e entregar aquela atmosfera indie-alternativo-garagem que os caras possuem.

É daquelas que a gente instintivamente relaciona a alguém que passou por nossa vida.

“Frankly dear the drifters had it right
Stayed the afternoon and left at night
Even though we have to say goodbye
Keep me in mind
Keep me in mind
Keep me in mind”

 


É importante ressaltar que Rodrigo sustenta o Little Joy com a voz, durante quase todo o álbum, de forma segura, precisa e ao mesmo tempo desleixada, de forma que só ele consegue fazer.

‘Play the Part’ tem uma levada bem calma, e fica por conta do dedilhar de violão e um coro de vozes que empresta aquela dramaticidade angelical ao som e nos ajuda a criar a atmosfera sentimental da música.

‘Unattainable’ ficou na responsabilidade de Shapiro e foi muito bem executada numa pegada folk-indie, também com presença de coral para reforçar a impressão que a música quer passar. É talvez a canção mais sentimental do álbum e carrega um ar meio retrô.

‘Shoulder to Shoulder’ é outra que tem uma pitada indie de Strokes e que Amarante acerta em como conduzir. A letra é meio em cima do muro e fala sobre amigos que não querem ou não pretendem serem apenas amigos, mas os tempos aparentemente não estão em sintonia.

“She can’t always be wrong
He can’t always be right
Not a matter of choice
Just a matter of time
‘til they know where they stand
Once they reach the end”
Eu recentemente fiz uma brincadeira com um amigo, que consistia em conseguir adivinhar sobre o que determinada música falava apenas ouvindo a melodia e não prestando atenção na letra. Foi fácil devido ao fato de eu ter ouvido músicas em alemão, que ele fala fluentemente, enquanto eu me confundo aqui com o uso do ‘x’ e do ‘ch’ nas palavras.
A questão é que certamente é possível fazer essa leitura, eu tive êxito, e com uma precisão até maior do que se imagina.

Eu entrei nesse assunto porque a música ‘With Strangers’ me chamou muito a atenção nos 7 primeiros segundos de execução. Só repara e me diz se só isso já não entrega um ar soturno, uma coisa meio na madrugada, que assusta ou que certamente não traz boas notícias.

O resto dela só vai confirmando essa impressão e isso inclui a voz melancólica do Amarante e o cantar do coro que é bem diferente da forma que se apresentou nas canções anteriores.

Shapiro também faz um ótimo trabalho em ‘Don’t Watch Me Dancing’ dando corpo ao desalento que habita as entrelinhas de cada verso. É uma música que explora as cordas, um folkzinho sentimental ao extremo, quase acústico, tendo Fabrizio e Amarante como backing vocal de Binki.
Essa versão unplugged aqui é bem delicinha de ouvir.

Little Joy tem no fundo uma identidade séria em relação ao compromisso de se fazer boa música, mas funciona muito bem como pano de fundo para aquela fase da vida em que a gente está descobrindo um monte de coisas. Como viver, como seguir suas vontades, como se divertir para cacete e sobretudo como amar e deixar ser amado.

A parte boa é que essa fase da vida pode acontecer a qualquer momento!

Have a Little Joy! 😉

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