Silva – Silva canta Marisa #EuOuvi

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Se existe uma área musical perigosa, traiçoeira, delicada e incerta ela se chama releitura, ou regravação, fique à vontade ainda que eu entenda as palavras de formas diferentes, eu não sou o chato que vai bater nessa tecla.

É sabido que ao menor sinal de uma releitura musical, principalmente quando o artista a ser regravado já possui status de Deus do Olimpo, e a pessoa a regravar ainda luta diariamente para poder caminhar livremente ao sol  em nossos fones de ouvido, o que se pode esperar são fãs arrancando os cabelos, puristas torcendo o nariz, críticos afiando as facas e pessoas de toda ordem e sorte opinando em algo que elas ainda nem escutaram, mas só o rumor já as deixa impacientes por problematizar a carreira alheia!

imagem: reprodução

– Menina ficou sabendo que a Marisa Monte tá de caso com esse menino mais novo aí? Que horror, né!

E por aí seguem as falácias, grande parte do tempo, não importando nada a qualidade do trabalho feito!
Os exemplos são milhares, e se você forçar a mente encontrará alguns com facilidade.

Mas vem cá, você sabe quem é Silva?

Lúcio Silva de Souza, conhecido como Silva (eu sei que você cantou mentalmente aquele funk, mas guarda isso pra depois) é um músico, cantor, compositor e produtor musical do Espírito Santo que desde o seu primeiro álbum, em 2012, vem comendo pela beirada no cenário nacional e conseguindo relativo sucesso.

Inicialmente com uma pegada bem independente e bastante trabalhada em sintetizadores, baterias eletrônicas e outras sonoridades pouco orgânicas, Silva foi se desvencilhando desse estigma de quem faz som pra pessoal de agência de publicidade e foi buscando uma sonoridade bem mais limpa, orgânica e que ressalta sua voz nas canções.

O mercado fonográfico pega no seu pé por isso. Já eu, acho que é um caminho natural, ainda que opcional, e que não prejudicou a imagem dele como cantor. Minha sugestão e que você ouça e tire suas próprias conclusões a respeito do rapaz.

Silva canta Marisa (2016) é seu quarto álbum de estúdio e olha…se as canções da Marisa mexem com você e com seu pobre coraçãozinho se prepare que não será diferente agora!

foto: reprodução

Fica claro que o álbum é minimalista e se apresenta quase como objeto de devoção de fã para artista. Com isso Silva economiza em arranjos, tornando-os mais simples, e compensa com a voz e interpretação na maioria das faixas.

‘Ainda Lembro’ é a faixa que abre o álbum e transforma essa canção, que já teve vez na voz de Ed Motta, em algo mais swingado e que, por coincidência, soa bastante com a sonoridade que se pode ouvir em discos do Tim Maia.

Existe uma pegada reggae e que aparece de forma crescente em três faixas se você prestar a devida atenção. São elas:

‘Eu Sei (Na Mira)’ , outra versão sem exageros com background vocal que complementa bem a voz de Silva. Pra mim umas das músicas mais redondas do álbum.

‘Não Vá Embora’ o swing aqui é mais perceptível, sobretudo através da guitarra que confere ar mais animado a música. O som tem tempo mais lento que a versão original e como resultado temos uma versão que não aborrece, mas tão pouco surpreende.

‘Verdade, uma Ilusão’, nessa a presença reggae/ragga é inquestionável e a faixa fica bem com essa identidade mais simples e despretensiosa.

‘Infinito Particular’ é a primeira música a carregar uma roupa de fácil identificação com os trabalhos anteriores do artista. Os arranjos alternativos e a programação eletrônica da batera praticamente apresentam o ‘infinito particular’ de Silva ao grande público. Achei sutil e pertinente!

‘Não é Fácil’, olha…falar dessa música realmente não é fácil! Essa versão mesmo com sintetizadores e reverbs ainda mantém a linha delicada e confessional que a canção original carrega. É a primeira a usar uma sonoridade mais sensual, porém com a letra melancólica que conhecemos. É pra ouvir no banho deslizando vagarosamente no blindex? É sim!

A única música inédita de Silva canta Marisa tem a participação da própria Marisa cantando e bem acompanhada por Silva ao piano e um delicado violino. ‘Noturna (Nada de Novo na Noite)’ é o nome da canção e ficou bonita assim:

“Não há nada de novo na noite
Venha cá, não há nada a temer
Pode ser que o silêncio te escute
E no escuro você possa ver

É só relaxar
É só se entregar
Não se preocupar
É bom pra pensar em nada, em nada
Deixar pra amanhã
Deixar pra depois
É bom se lembrar de respirar de novo, de novo”

‘Pecado é lhe deixar de molho’, talvez seja a menos familiar das regravações e vem direto dos Tribalistas. Feita em parceria com Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, a música continua tímida na versão atual, mas a letra é o encanto a parte.

Aparentemente Silva canta Marisa fez maior barulho e caiu nas graças do público depois que ‘Beija Eu’ música mais pop e quase chiclete de Marisa, ganha uma versão super sensual nos arranjos e com clipe provocativo e derrubando paradigmas relacionados a sexualidade e as opções que elas nos apresenta.
A vontade é de pegar aquela pessoa pelo braço, essa aí mesma que você está pensando, e tascar um beijo daqueles de deixar a plateia sem ar.

‘Bonde do Dom’, a cara de samba adotada em ‘Universo ao meu Redor’ é desconstruída e entra em cena a programação eletrônica, batidas com dobras e um apagado cavaquinho ao fundo. Bonde do Dom continua sendo uma faixa mais contemplativa do que animada.

‘Tema de Amor’ e ‘Na Estrada’ encerram o álbum de forma mais forte e vibrante, mais uma vez fugindo da proposta das canções originais, com pegadas voltadas ao funk numa linha mais forte de baixos na primeira e a segunda seguindo uma linha indie, porém de facílima digestão nos fones de ouvido.

Escutar Marisa Monte sempre foi uma experiência boa pra mim e a familiaridade com todas as letras certamente também tornou a audição mais fácil. Tendo a missão de dar roupagem nova ao arranjo de todas as 11 faixas do cd, e conseguido êxito em fazê-lo,  Silva dá mais um passo em direção a solidez de sua carreira.

Permita esse universo particular sonoro ao seu redor!

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