Criolo – Espiral de Ilusão #EuOuvi

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Lá vem Casé com seus Larará…

Exato! E o de hoje se chama Espiral de Ilusão (2017), mais recente álbum do rapper paulista Criolo, que se apresenta de uma forma bem diferente daquela a qual iniciou na carreia musical e de forma ainda mais distinta dos sons que o firmaram como símbolo da MPB/RAP Nacional.

foto: reprodução

Kleber Cavalcanti Gomes, inicialmente conhecido como Criolo Doido, que iniciou se embrenhando no rap na década de 90, percorreu um percurso longo até que seu primeiro álbum fosse lançado, Ainda há Tempo (2006).

De lá pra cá Criolo flertou com sucesso entre diversas linhas musicais em seu álbum de destaque Nó na Orelha (2011), ápice desse balaio, que envolveu soul, blues, funk, samba, mpb, reggae, brega e etc.
O álbum teve importância dentro do rap nacional por desmistificar o jeitão sisudo, marrento e de poucos amigos com que era visto, sobretudo em São Paulo.

Daí você pensa: Ahh..cara! Outro álbum de rap, mas que chatice!
E respondo com meu Larará: Calma gafanhoto, não seja ruim da cabeça e nem doente do pé!

Se a essa altura você já suspeitou que vamos falar de samba e ainda está lendo minhas palavras então fique à vontade, porque o novo álbum do Criolo é samba do início ao fim.

Com a produção de Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral, parceria que já havia ocorrido anteriormente, Espiral de Ilusão surpreende pela qualidade sonora do início ao fim.

Não existe nenhum espirro de nota fora do lugar, tá tudo montadinho e acho inclusive que não há o que acrescentar ou tirar. Porém isso não torna o álbum em uma referência no estilo a que se propõe. Ele é um álbum sonoramente justo!

Seguindo a temática dos sambas de outrora mas composições permeiam temas sociais, as focam mesmo é no amor, incluindo o não correspondido, e aquele amor mais vadio (vulgo amor a 3 onde 1 está meio desinformado do que rola) nas faixas Lá Vem Você’, ‘Dilúvio de Ilusão’, ‘Calçada’, ‘Nas Águas’ e ‘Espiral de Ilusão’.

Outras vertentes como samba-choro, jongo, samba de breque e animados partidos também engrossam esse caldo de desamor que o Criolo narra em mais da metade do álbum.

É possível notar que as letras não são tão complexas quanto os raps do cantor e da mesma forma nem a vitalidade dos partidos altos mais animados quanto as melancólicas letras de poetas com Cartola, do qual o rapper é fã, podem ser encontradas na sua interpretação.

É um samba reto e sem muitas nuances de emoção, mas o cara é rapper…vale dar esse desconto!

foto: reprodução

Carregadas de cuíca que choram saudades, trombones, tamborins, flautas, sax, cavaquinhos tinindo, violão de 7 cordas e coral feminino e masculino, as faixas de Espiral de Ilusão totalizam 10 (das quais assina 8 sozinho) e não ressoam por mais de 35 minutos.

Segundo Criolo esse era o momento certo do álbum sair e de certa forma o universo conspirou positivamente para que isso acontecesse.

“O samba não é quando você quer.
Não é na hora que você quer.
É quando o seu coração está preparado”

O engajamento político do artista ficou claro na primeira faixa divulgada ao público, e que aponta de maneira bem explícita a posição política do rapper.

‘Menino Mimado’

“Eu não quero viver assim, mastigar desilusão
Este abismo social requer atenção
Foco, força e fé, já falou meu irmão
Meninos mimados não podem reger a nação
Meninos mimados não podem reger a nação”

Filha do Maneco’ é um samba de breque bem ao estilo Moreira da Silva, inclusive no tipo de narrativa adotada que fala sobre Maneco, pai super protetor, e que tem a fama de engordar o bolso do coveiro enviando os interessados em namorar sua filha.

‘Boca Fofa’ é um sambinha daqueles de salão, animado, mas onde a letra não casa muito com a melodia dançante que a música carrega.

‘Hora da Decisão’ (Ricardo Rabelo e Dito Silva) única que não contém linhas do Criolo é a que mais soa com seus trabalhos anteriores e fala sobre as dificuldades da favela e suas regras para que exista a possibilidade de malandros e trabalhadores coabitarem…esse segundo grupo sempre prejudicado.
A faixa me soa como a mais bem trabalhada, pois se desenrola em cima da ambiguidade de palavras, começando pelo nome da faixa que remete a uma partida de futebol (e são comuns as peladas na favela) assim como o momento decisão entre moradores e o pessoal do ‘bicho’.

‘’[…]Sai da área, afasta a bola
É hora da decisão[..]

O toque é de recolher
Pra não haver correria
Entre linhas, quem vai bater?[…]’’

E por fim o álbum termina com a animada Cria de Favela’ que também tem pegada político-social e ao som de sopros e cara de ‘terreirada’ transforma o fim dessa Espiral de Ilusão numa farra ‘pisada no chão’ embalada ao som de muito Laraê.

Fazendo parte de uma nova geração de artistas que apostam muito no digital para divulgar seus trabalhos, Criolo disponibilizou na íntegra o disco através do seu site, e conta ainda com a possibilidade de download de material exclusivo, em formato de revista, e que nos presenteia com letras, fotos inéditas, depoimentos, partitura e etc.

Material bem bacanudo e completo:  http://www.criolo.net/espiral/

Ahhhh…E quem mora no RJ pode aproveitar o show na íntegra,  nos dias 01 e 02 de Julho (e um show extra no dia 09 de julho) no Circo Voador. 

Se você não conhecia nada do trabalho desse músico até o presente momento, acho que Espiral de Ilusão não é o melhor pontapé, mas serve pra entendê-lo melhor como artista e sobre as possibilidades que carrega em si.

Temos que concordar que não é comum encontrarmos artistas capazes de uma guinada tão brusca assim em direção a outras direções melódicas e líricas.

No fim das contas…Feio é arrastar e nem perceber!

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